

Dançar Motores
Esse texto nasce do Projeto Dançar Motores - Mesa de Controle de Motores para Aplicações Artísticas, contemplado pelo EDITAL PARA ÁREAS TÉCNICAS - POLÍTICA NACIONAL ALDIR BLANC DE FOMENTO À CULTURA - SECULTFOR. Nesse projeto pesquisei como gravar e executar coreografias de motores, como uma mesa de luz, mas voltada para motores, colaborando com a ampliação do conhecimento sobre automatização cênica. Iniciarei abordando um pouco de conceito e contexto no campo das Áreas Técnicas, para depois apresentar a pesquisa realizada.
A técnica
A técnica é um conceito que se entrelaça e se confunde com a própria existência humana. Se na perspectiva ontológica do ser social do marxismo abordada por Sérgio Lessa(1), a humanidade sai da esfera ontológica biológica para criar a esfera ontológica social pelo trabalho, a técnica é parte da produção desses novos modos de existência. Trabalho entendido aqui não como é comumente abordado pelo capitalismo, mas pela noção radical de atividade consciente pela qual os seres humanos transformam a natureza para realizar uma finalidade previamente idealizada, produzindo simultaneamente a realidade objetiva e a si próprios como seres sociais.
Sergio Lessa, explicando a ontologia do ser social, vai dizer que é justamente o momento histórico em que a humanidade começa a antever ações e perceber suas relações de causalidade, que descola a humanidade da esfera ontológica biológica. Essa capacidade de antecipar mentalmente um resultado e orientar a ação para realizá-lo é chamada de teleologia associa-se diretamente à presença da técnica na história da humanidade, pois, projetar uma intervenção no mundo vem acompanhada do desenvolvimento de estratégias e procedimentos para a realização da mesma. Ou seja, se por exemplo, um indivíduo imagina um objeto antes que ele exista, sua atuação sobre a matéria para produzi-lo, sua mediação material com o mundo, ocorrerá por meio da técnica. Ela - a técnica - é a mediação prática entre a finalidade concebida e sua objetivação material: ela é o conjunto de conhecimentos, habilidades, procedimentos e mediações materiais desenvolvidos socialmente para permitir a realização de posições teleológicas sobre as causalidades da realidade.
Nesse contexto, vale abrir um parêntese para a armadilha do entendimento antropocêntrico dessa perspectiva Lucacksiana, apresentada por Lessa. A relação de transformação do mundo pela humanidade não a coloca em situação de apartamento com as demais matérias do mundo. A compreensão de dinâmicas próprias ao funcionamento da humanidade e a formação da esfera social, não deve levar ao entendimento de uma relação vertical e de subordinação da matéria-mundo à matéria-humanidade. Pois, assim como o conceito de trabalho foi apropriado a serviço do capitalismo, a perspectiva antropocêntrica também é uma criação a seu serviço e deve ser revista com criticidade desde os primórdios da existência humana. Dito de modo simples, a capacidade de antecipação e de analise de causalidade própria à humanidade, não devem ser entendidas como fatores de superioridade e separação do restante da natureza. Essas qualidades são somente marcas de funcionamento, não significam marcas de status hierárquicos.
Nesse mesmo sentido crítico, o filósofo Gilbert Simondon(2) defende que a técnica não deve ser compreendida como um mero instrumento subordinado ao ser humano. Os objetos técnicos possuem uma realidade própria e evoluem segundo processos de concretização e individuação. A técnica é um modo de relação entre o ser humano e o mundo que se materializa em objetos técnicos portadores de uma lógica própria de funcionamento e evolução. Ela constitui um processo de invenção e concretização por meio do qual seres humanos, matéria, energia e informação se articulam em sistemas operatórios. Nessa perspectiva, Simondon não verticaliza a relação entre humanidade e demais mundo porque entende que a matéria e os objetos técnicos construídos, possuem dinâmicas próprias de existência que, se apresentam enquanto consignas de interação na mediação técnica com a humanidade.
Assim, a partir das noções apresentadas, a técnica está presente em tudo e em todos os contextos da humanidade. Entretanto, no contexto deste escrito, o entendimento de técnica se delimita dentro das Áreas Técnicas da Cultura, um campo em disputa ativa entre os fazedores de cultura, que vem atualmente sendo desenhado pelos e pelas trabalhadoras e trabalhadores do campo como: cenografia, figurino, sonorização, caracterização, técnicas de palco, iluminação, coletivos de artes técnicas. Essa delimitação vem sendo debatida e disputada dentro dos espaços de estabelecimento de políticas públicas para Áreas e Artes Técnicas, que gostaria de mencionar, dada a importância, especialmente o trabalho de debate e desenvolvimento de pensamento e politicas publicas desenvolvido pelo Grupo de Trabalho da Funarte(3), porque é uma instancia que guia o entendimento e desenvolvimento da política pública nacional no campo da arte e da cultura.
Embora a Funarte tenha uma importância incontestável na orientação e referencia de políticas nacionais, foi a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará - SECULTCE, que instaurou o primeiro edital voltado para as Áreas Técnicas no Brasil. Fruto da luta organizada dos técnicos e das técnicas desse território, esse edital marca não somente o pioneirismo em termos de política pública, mas sobretudo marca uma discussão sobre qual o espaço dos técnicos e das técnicas da cultura, dado que todas as políticas voltadas para essa categoria até então, eram de ordem regulatória das condições e direitos trabalhistas e de segurança. No entanto, esse contexto de entrada no âmbito das políticas públicas, traz à tona o entendimento generalizado da atividade técnica como destituída de autoria, ou seja, a noção de que a atividade técnica na cultura tem sua condição de existência condicionada ao projeto artísticos de outrem. A batalha por políticas públicas nas Áreas Técnicas, instaura, portanto, uma disputa de imaginários e práticas de atuação dessas e desses profissionais, porque nos encontramos defendendo o direito de construção de políticas que habilitem a possibilidade de realizar, por exemplo, publicações, construção de ações voltadas à preservação da memória, realização de pesquisas, ações de manutenção de espaço e finalmente, a mais questionada delas, o direito à criação de obras autorias, ações essas (e outras não mencionadas), nas quais as técnicas e os técnicos possam ser propositores, autores de propostas em âmbitos diversos. Vale sublinhar, que defender essa abertura de espaço às técnicas e aos técnicos, não objetiva estabelecer um novo status do trabalho técnico como algo restrito ao trabalho autoral. Tampouco busca estabelecer hierarquias entre os tipos de atuações técnicas, mas sim objetiva, ampliar o campo de atuação das Áreas Técnicas.
O projeto
Essa luta chega à Secretaria de Cultura de Fortaleza - SECULTFOR, também pioneira enquanto município (estado do Ceará) a instaurar edital voltado para a classe técnica, com as categorias de Formação, Criação e Circulação, Pesquisa e Desenvolvimento e Memória Material e Imaterial. Contexto no qual, no EDITAL PARA ÁREAS TÉCNICAS - POLÍTICA NACIONAL ALDIR BLANC - SECULTFOR CHAMADA PÚBLICA Nº 023/2024, fui aceita na categoria de Pesquisa e Desenvolvimento, para realizar uma investigação voltada para a criação de uma mesa de controle baseada em microcontroladores, que pudesse realizar a gravação de uma coreografia de motores. Minha necessidade técnica era de poder mover e gravar na linha do tempo, o momento em que um motor de corrente contínua está em uma direção ou outra e, na direção escolhida, ademais, determinar a velocidade. Com esses parâmetros, queria poder montar uma coreografia que fique registrada e possa ser reproduzida por um motor. Essa demanda emerge do meu trabalho como cenógrafa e artista cênico-instalativa, atuante com a tecnologia digital. Meus trabalhos autorais emergem da escolha em movimentar objetos e cenografias por motores, motivo pelo qual essa pesquisa fortalece enormemente minhas práticas autorais e as colaborações com outros artistas.
A demanda coreográfica de automatização apresentada, pode ser realizada com mediação do computador, por meio de softwares como Isadora ou softwares geradores de valores com exportações em diferentes protocolos, como Vezer. Entretanto, meu desejo era de eliminar a presença do computador do momento da performance objetual/cenográfica, o que torna minha tarefa muito mais complexa, mas muito mais aplicável em certos contextos pela redução de custo, tornando essa oportunidade de pesquisadora subsidiada pela política pública, uma grande oportunidade de realizar o caminho mais complexo.
Nesse contexto, ao abandonar o caminho por uso de computadores no momento da performance, o caminho que se abre é com o uso de plataformas microcontroladas. Dentre as plataformas microcontroladas, decidi trabalhar com ESP32, por possuir uma boa capacidade de processamento e comunicação sem fio integrada à placa. Estive muitos dias descobrindo o básico de como fazer meu velho computador de plataforma IOS comunicar com ESP32, até conseguir. Na sequencia, tinha a decisão de qual motor operar com essa controladora, uma escolha que modifica hardware e software. Decidi trabalhar com motor DC de pequeno porte, a partir do qual construí o primeiro canal de controle que é modelo para reprodução do outros canais. Posteriormente fiz um canal que gravava motor de passo, ajustado para a demanda de uma obra específica, questões que apresentarei mais adiante.
Decidido o uso da plataforma ESP32, a etapa seguinte colocava a tarefa de desenhar como seria uma canal dessa mesa: quais botões estariam presentes e quais seriam sua funções. Em meus cadernos de notas, prototipei alternativas:




Decidi, por fim, que teriam os seguintes controles:
-
Slider potenciômetro:
1.1. posição metade acima - motor gira em direção A e vai de 0 a 100% de sua velocidade
1.2. posição metade abaixo - motor gira em direção B e vai de 0 a 100% de sua velocidade
2. Botão de Gravar - quando apertado, envia os dados seguintes do potenciômetro para a memória e quando desativado, deixa de enviar dados à memória e sai do modo gravação.
3. Botão de Apagar - apaga a coreografia gravada na memória
4. Botão play OneTime - reproduz a coreografia gravada uma só vez (importante para momentos de estudo e ajuste de coreografia)
5. Botão play loop - reproduz a coreografia em ciclos repetidos, até deixar de ser apertado (interessante para deixar operando em uma instalação).
A metodologia usada foi de construir em forma prototípica, isto é, a ligação dos elemento de hardware feitas sem fixação permanente, implementando da menor unidade do sistema até a maior, acrescentando um elemento a cada vez.
A minha unidade mínima foi fazer funcionar um ESP32 e um potenciômetro. Em seguida, conseguir fazer dois ESP’s32 se comunicarem à uma distância de pelo menos 10m, distância que a documentação desses microcontroladores dizia ser realizadas entre dois ESP32's comuns, mas que só foram possíveis quando usado ESP32 com antena. A consigna de realização dessa segunda unidade mínima do sistema era de enviar os dados do potenciômetro+ESP32 (emissor) para outro ESP32+led onboard (receptor) a pelo menos 10m de distancia, enviando dados que fizessem efeito de correspondência entre os valores do potenciômetro com os valores de fade in e fade out do led onboard do ESP32 receptor.
unidade mínima 1
pot
slider
ESP32
unidade mínima 2
pot
slider
ESP32
emissor
ESP32
receptor
LEd
onboard
unidade mínima 3
pot
slider
ESP32
emissor
ESP32
receptor
Motor DC
Essa etapa desenvolveu a arquitetura básica de programação para enviar e receber dados, que foi trabalhada na perspectiva de que o microcontrolador emissor fizesse o trabalho de leitura de dados dos hardwares acoplados a ele (botoes e slider), de maneira que restasse ao receptor apenas receber dados e ativar o motor a ele acoplado, no intento de diminuir a possibilidade de delay e perda de dados na comunicação e processamento de recepção.
Para colocar um primeiro motor de teste, substituindo o led como atuador da unidade básica nº2, é necessário um drive e manejo de alimentação externa para o motor, abrindo outra zona importante do trabalho que trata de definir como será alimentado esse sistema, situação que interfere na programação, pois modifica o numero de conexões entre o microprocessador e a interface de motores - a ponte H, que nesse projeto foi feita pelo chip L293D.


Assim, nessa etapa havia um emissor com um potenciômetro, conectado sem fio a um receptor com ponte H, reguladores de tensão, alimentação com bateria recarregável e um motor DC. Para o emissor, a etapa seguinte foi conseguir colocar um módulo de SD card para armazenar os valores da coreografia gravada. Trabalhei muito nessa etapa, entre técnica de programação e criação da arquitetura de funcionamento de armazenamento dos dados. Fui, então, acrescentando um botão por vez (gravar, apagar, play oneTime, play loop). Da menor unidade do sistema ao sistema completo, cada elemento acrescentado reescreve o software para incluir a nova função.
O software/código foi construído em agenciamento com as Inteligências Artificiais - IA - ChatGpt e GitHub, porque meu conhecimento de programação me possibilita com a IA: orientar a criação de código, analizar as devolutivas, identificar problemas de código e sugerir estratégias de soluções dos códigos, mas não é suficiente para escrever um código dessa complexidade diretamente linha por linha. Depois de muito trabalho para encontrar a fluidez desejada em termos de software e hardware, tenho um código de emissor e receptor configurados para o hardware mencionado.
Podem ser encontrados aqui:
Nesse processo de pesquisa, realizei uma investigação para desenvolver minha própria placa de circuito impresso - PCB (porque vem do inglês “Printed Circuit Board”) -, uma escolha pela artesania que, foi também financeira, mas sobretudo foi uma escolha de autonomia, uma escolha de poder manter a capacidade de produzir minhas placas cada vez que eu alterasse o desenho de hardware por necessidade da pesquisa.
Ali começou uma outra jornada, sobre como construir uma placa de circuito impresso artesanal, dada a relativa complexidade do circuito em questão. Dos métodos encontrados, o que me pareceu mais acessível foi:
1. desenhar o circuito em software especializado (Kicad);
2. preparar uma placa de cobre com tinta preta spray
3. colocar esse desenho na placa pintada, pela CNC laser de pequeno porte do meu Ateliê Feijão-Borboleta(4).
4. colocar essa placa no percloreto de ferro.
Como é sabido, em uma pesquisa dessa natureza, cada etapa é um conjunto de tentativas e erros até entender, por exemplo, qual das placas que comprei funcionam melhor, qual tinta realiza a tarefa, quais os parâmetros da maquina laser, dentre outros aspectos, percorrendo um certo caminho, até atingir o objetivo de realização autônoma das minhas PCB's.
Os softwares utilizados foram:
1. Kicad para desenhar a PCB (esse funcionou no IOS)
2. Inkscape para ajustar o desenho para PCB e exportar arquivo legível ao próximo software (só funciona Windows)
3. Laser GRB para ajustar os parâmetros e comandar a impressão da CNC laser (só funciona Windows)
4. Furar com furadeira de bancada
5. Identificar possíveis curtos-circuitos com multímetro e ajustá-los



Trilha de Software para confecionar PCB via CNC Laser

PCB frente e verso do receptor feita na CNC Laser
Depois de alcançado esse objetivo, trabalhei no desenvolvimento de um canal de controle de motor de passo com funcionamento ligeiramente diferente. Esse tipo de motor precisa de outro modelo de drive para operar seus 4 fios de controle (existem com mais fios, mas trabalhei com NEMA 17 de 4 fios). O drive escolhido foi o DRV 8825 e o código da estação de recepção foi alterado para operar com esses valores na ativação do motor.
Nesse processo, a escolha foi por construir um modulo gravador de conectividade por fio, devido à demanda específica do uso em uma instalação com 5 motores de passo. Por isso, a placa de comando (contendo botão e slider) fazia um trabalho de enviar dados para que a placa de controle gravasse a coreografia - a partir dos parâmetros de direção e velocidade - e nessa placa de controle, havia na programação, um espelhamento do movimento gravado, fazendo com que ao receber os dados de gravação, o programa receptor, acrescentasse no código um trecho de coreografia que inclui: uma pausa, a mudança de direção e mantivesse o mesmo uso de passos e velocidades realizadas. Ou seja, ao gravar o movimento de subida, por exemplo, de um objeto no espaço, o programa espelhava e preparava o movimento de descida do objeto na mesma velocidade e deslocamento percorrido. Essa unidade de controle foi usada no projeto Floresta de Cubos Flutuantes, uma instalação que produzia coreografia para cubos que subiam e desciam no espaço a partir da partitura de movimento gravada nos motores.

Por fim, não posso deixar de mencionar as etapas de concepção e desenhos 3D de objetos constituídos por polias e engrenagens e para suporte dos motores e ajustes de seus movimentos. Usei o programa parcialmente gratuito e online chamado Onshape para desenho, e imprimi as peças numa impressora 3D Creality do Ateliê Feijão-Borboleta.
Encerro esse texto declarando a grande importância que esse projeto tem para mim, uma oportunidade dada pelas políticas públicas de cultura, motivo pelo qual reafirmando sua importância no desenvolvimento social da arte e da cultura. Meu projeto demonstra o quanto um trabalho de pesquisa pode potencializar o desenvolvimento técnico e artístico nesse campo, além do caráter de fortalecimento da presença de mulheres outras dissidências na técnica e na tecnologia e da ampliação da paleta técnica da cenografia.
Notas:
1. LESSA, Sergio. Para compreender a ontologia de Lukács. 4. ed. Maceió: Coletivo Veredas, 2016.
https://sergiolessa.org/wp-content/uploads/2025/07/Para-compreender-a-ontologia-de-Lukacs_2016.pdf
A ontologia do ser social são idéias do filósofo marxista György Lukács
2. SIMONDON, Gilbert. Do modo de existência dos objetos técnicos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020
3. Esse grupo é aberto à todos e todas que quiserem acompanhar o debate, pode entrar no WhatsApp: https://chat.whatsapp.com/LmzUvLHkzLvD3i4p43IH9L?s=sw&p=i&mlu=1 e atualmente os documentos produzidos pelo grupo se encontram acessíveis aqui: https://drive.google.com/drive/folders/1R1tP47yPxudiksqGwyDSTDBga0S_haP2
4. O Ateliê Feijão-Borboleta é meu espaço de construção e criação de objetos e cenografias coreografáveis.
